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HOMENS GOSTAM DE HOMENS - Sac S2

HOMENS GOSTAM DE HOMENS

A NOVA SAFRA DOS HOMENS HETEROSSEXUAIS QUE NÃO GOSTAM DE MULHER

machismo 4Historicamente encontramos diversos exemplos de manifestações críticas enfáticas de homens em relação às mulheres. Ideias e expressões que combinam aversão, desprezo, raiva, pena e até certa dose de temor. Sequer os grandes nomes do pensamento ocidental escaparam de despejar sua repulsa ao universo feminino. Muitos deles relativizados por serem “reflexo do seu tempo”. Mas, e em nosso tempo? Por que essas ideias ainda encontram eco? Uma suspeita é a de que boa parcela dos homens, ainda que heterossexuais, gosta de outros homens.

“Uma mulher que tem a cabeça cheia de grego […] disputa sabiamente sobre temas de mecânica, só lhes falta a barba para expressar melhor a profundidade do espírito que ambicionam.” (Emmanuel Kant)

De tempos em tempos surgem mudanças na maneira como pensamos, sentimos e nos comportamos diante das questões envolvendo a dinâmica homem x mulher. Fazendo uma analogia superficial com o pensamento de Thomas Kuhn, quando essas mudanças são sutis, funcionam como uma espécie de anomalia, que não constitui elemento suficiente para a quebra de um grande paradigma ou o estabelecimento de outro, o que só ocorre quando a mudança tem status de revolução. No que diz respeito a sexualidade humana, o historiador Thomas Laqueur nos apresenta em seu livro “Inventando o sexo”, um panorama da maneira como a diferença entre os gêneros é tratada historicamente, apontando alguns padrões vigentes por longos períodos. No geral, eles guardam uma semelhança, a apresentação da mulher como ser inferior, seja por uma questão de “deficiência no desenvolvimento”, seja por fatores biológicos e socioculturais.

O modelo de Aristóteles e de Galeno trazia a ideia de um sexo único, porém com a mulher ocupando um lugar de “homem imperfeito” ou “homem não desenvolvido”. Nessa concepção, devido à falta de calor responsável pelo desenvolvimento, os órgãos genitais femininos não teriam tomado seu lugar na parte externa do corpo, mas interna. Desta forma, o útero seria o saco escrotal, os ovários seriam os testículos, a vagina, o pênis, e a vulva, o prepúcio. Os estudos detalhados de anatomia não foram suficientes para convencê-los das diferenças, tamanha a força deste paradigma. A mulher seria então “um homem invertido”, ideia que só seria alterada no século XVIII, mas que, para Laqueur, não foi totalmente abandonada.

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Mesmo com a mudança, a mulher ainda era colocada numa posição de inferioridade, desta vez por questões biológicas, sendo considerada incapaz de desenvolver tarefas intelectuais, políticas ou científicas, como seres infantilizados. Que o diga Hegel: “as mulheres são passíveis de educação, mas não são feitas para atividades que demandam uma faculdade universal, tais como as ciências mais avançadas, a filosofia e certas formas de produção artística”. Chegamos ao século XXI e agora sabemos (espera-se!) que mulheres não são homens incompletos ou mal desenvolvidos. Que não são intelectualmente e biologicamente inferiores. E sabemos também que há diferenças anatômicas que facilitam ou dificultam determinadas tarefas, mas que nada têm a ver com as funções sociais e culturais a serem desenvolvidas, como se elas fossem biologicamente mais aptas para serem secretárias do que diretora de uma empresa.

Porém, mesmo com a revolução paradigmática, os homens ainda insistem no tratamento desigual, ignorando, assim como nos demais períodos da história, a igualdade de direitos e a capacidade intelectual e produtiva da mulher. Além disso, a aversão histórica ao feminino, já presente na Grécia Antiga, no Império Romano, na Idade Média, no Iluminismo, nas religiões, no mercado de trabalho, e mesmo no universo acadêmico, permanece firme. O que nos leva a questionar qual seria o problema ou o que o perpetua. Suspeito que, de quando em quando, a mudança sutil seja simplesmente um intervalo para a chegada de uma nova safra de homens heterossexuais (também muitos homossexuais) que, assim como seus antepassados, não gosta de mulher, seja por repulsa, medo ou rivalidade. MACHISMO 2Mudam-se os argumentos, as justificativas, as queixas, mas permanece a misoginia. Ainda que gostem ou afirmem gostar do sexo com mulheres, é só do sexo, não delas. As redes sociais, como em qualquer outro assunto, são um campo vasto para perceber a paúra que muitos têm em relação à feminilidade. Como exemplo, cito o ódio gratuito destilado contra mães solteiras (curiosamente um demérito dela e não do pai). Quando uma mulher trai ou abandona um homem, as críticas são direcionadas a ela, por ser considerada mau-caráter, infiel, no mínimo. Porém, quando uma mulher sofre do mesmo mal, ela é também criticada por não saber fazer escolhas: “Quem manda sair com qualquer um?” Perceba que, para cada mãe solteira, há pelo menos um pai solteiro. Só que ele abdicou do pai e ficou só com o título de solteiro. O que é necessário para que a culpa seja do homem? E a lista de ataques é infinita…

Contra mulheres que usam decote, roupa curta, roupa justa, maquiagem… Precisam se vestir de forma decente! Que não se maquiam ou são pouco vaidosas… Não se cuidam! Que estudam ou trabalham demais… Não têm vida social! Que não estudam ou trabalham… Encostadas! Que bebem (afinal, não devem beber), que não bebem e por isso são companhias chatas que não sabem curtir a vida. Que não gostam de sexo, que gostam muito de sexo, que são tímidas demais, que são extrovertidas demais, que não se preocupam com a estética, mas também com as que se preocupam demais com a estética, que ligam no dia seguinte, que esperam ligar, que transam no primeiro encontro, que fazem o cara “perder tempo” com um encontro que não teve sexo. Na internet já existe quase uma “sociedade brasileira dos homens que não suportam estrias”, ou seios pequenos, ou mulheres que gostam de futebol.

Não tem a ver com preferências, com gostos, do tipo: tenho ligeira preferência por gordinhas, morenas, esportistas, pelas mais caseiras ou intelectuais, estamos falando de desculpas para não admirar a mulher. De tal forma que, entre um meme machista e outro, podemos notar o esforço do camarada para tentar gostar delas. A constância e a intensidade com que nos deparamos com as críticas nos leva a crer que há uma única forma de ser apreciada por essa multidão de homens (caso fosse o objetivo), transformar-se em HOMEM. Esses héteros gostam de sexo com mulheres, mas eles amam de verdade os HOMENS. Ela não joga vídeo game como o “parça”. Não fica emocionada com um drible desconcertante de Messi ou Cristiano Ronaldo, como o amigo. Ela não curte as brincadeiras “superengraçadas” e os assuntos que ele adora tratar por horas com os brothers. Qualquer mensagem de cinco linhas escrita por uma mulher é lida como uma manifestação de descontrole emocional, cobrança ou chatice. Mas ficar três horas discutindo se foi ou não pênalti, é questão de honra e tesão. Sim, essa safra de homens transa com as mulheres, mas gozam mesmo é com outros homens. No rolê do bar, no estádio, no show, em casa, no trabalho ou na “casa de masturbação exclusiva para homens” inaugurada recentemente em Madri. É a disputa pra ver quem tem o maior falo, em todas as áreas, e a mulher não tem o falo para disputar. É nesta sociedade falocrática que um portal de notícia se referiu à mundialmente famosa Gisele Bündchen como “esposa de Tom Brady”. Se você teve um pai, avô ou tio que gostava de um boteco, deve se lembrar de como ele não via a hora passar, de como ficava quatro, cinco, seis horas ininterruptas de puro prazer. Mas achava um saco passar uma hora com a esposa.

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As mesmas atitudes negativas criticadas numa mulher podem se tornar combustível para o sucesso de um homem. Um exemplo recente foi do Sr. Givaldo, agora ex-morador de rua, que ganhou fama, dinheiro e até um apartamento depois de recuperado da agressão sofrida. Seu feito? Ter relações sexuais com uma mulher que, segundo o psiquiatra responsável pelo acompanhamento, comprovadamente sofre de transtorno mental. Sua ascensão não se deu pelo fato em si, mas pela maneira como o explorou incansavelmente, dando detalhes e “exaltando” o corpo da mulher. Ela? Ganhou perseguição, julgamento, culpa, vergonha, medicamentos e gastos com tratamento. Ele? Milhões de fãs e já deve ser chamado de “influencer” por aí. Centenas de contas no Instagram foram criadas em nome de “mendigo sedutor/conselheiro/pegador/coach”.

Diariamente vemos outras manifestações de exaltação a figuras masculinas que oprimem ou humilham a mulher, e elas sempre revelam entusiastas. Um famoso político brasileiro fez uma postagem associando um acidente ocorrido em obras do Metrô à contratação de mulheres pela empresa prestadora do serviço. Nada espantoso para quem aprendeu que o nascimento de uma mulher representa uma “fraquejada”. No universo particular dos apps de relacionamento há milhares de representantes desta safra. Em uma imagem que circulou nas redes um deles exigia que a mulher usasse tênis Mizuno (?!) Que, aliás, nem é um calçado “tão feminino”. Há alguns anos o “Mister Bento Gonçalves” reagiu mal a um fora que levou num flerte, e atônito questionou: “Que papo é esse de não fazer o seu estilo? Se eu faço estilo de todas?”. É quase “eu me pegaria se fosse mulher”. Semelhantemente, quem frequenta ou mora próximo a universidades, especialmente particulares, se depara com uma figura muito peculiar de hétero, o que se reúne com dois ou três amigos num carro rebaixado e fica circulando em torno do campus, com som “no talo”. A desculpa é de que “é para pegar mulher” embora eu nunca tenha ouvido nenhum relato de mulher com essa meta de relacionamento. Pensando nisso… Será que a crítica severa à presença de mulheres apitando jogos de futebol é porque elas atrapalham a intimidade? A situação sempre foi complicada para a mulher, e ultimamente o clima tem sido de preguiça e medo. Muitas mulheres estão com preguiça dos homens, de conhecê-los, de conversar com eles. Quando vencem a preguiça, ainda têm de encarar o medo. De estar entrando numa furada, de arrumar problema, de colocar-se em risco.

Beavis e Butt-head, dupla famosa pela "brotheragem".

Beavis e Butt-head, dupla famosa pela “brotheragem”.

É provável que alguém se incomode com o texto. Talvez até ao ponto de insinuar que foi escrito para “implorar migalhas femininas”, ser mais um manifesto do “desculpe por ser homem”, ou um tratado “feministo”, expressões usadas com frequência para desmerecer críticas a atitudes contestáveis do universo masculino, mas não. É possível gostar de ser homem e gostar de mulher.

Se você chegou até aqui e não é um deles, se não pertence a esta safra, fique tranquilo. Não há motivo para se ofender. Se você admira as mulheres, conversar com elas, ouvi-las, estar ao lado, rir, chorar, fazer compras, assistir a filmes, séries, futebol, jogar games, discutir sobre livros, teorias, refletir sobre ética, moral, relacionamentos, ter DRs, dividir tarefas, cozinhar com elas e para elas, se torce por elas, pelo sucesso, desenvolvimento, se ama ensinar e aprender com elas, praticar esportes, estudar, visitar os pais, levar o cão para passear, ir ao supermercado, falar de ciências exatas, humanas, biológicas – seja lá qual for a especialidade que ela venha a ter – e, obviamente, transar com ela, fique tranquilo, você gosta de mulher. Se você é homem e se incomodou com o texto, poupe as mulheres, afinal, o texto foi escrito por outro. Lembre-se: “Ninguém é mais arrogante em relação às mulheres, mais agressivo ou desdenhoso do que o homem que duvida de sua virilidade”. (Simone de Beauvoir)

Alessandro Poveda
Psicanalista SAC
(11) 94945-8735

 

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