FUTEBOL COMO FUNÇÃO SOCIAL

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Pelada, Violência e Psicanálise

Embora alguns discursos (de viés intelectual ou não) apresentem o futebol como ópio, como atividade desimportante, elemento comercial, destinado às massas – a fim de distanciá-las das questões relevantes da sociedade, ele tem sim uma função social deveras importante.

O futebol é praticado hoje em praticamente todos os países e tem oficialmente mais de 260 milhões de praticantes. Esse número é muito superior se levarmos em conta os praticantes amadores e sem nenhum tipo de registro de contagem. Além disso, esses são dados do censo de 2006 (FIFA Big Count), e o futebol tem crescido mundialmente com os avanços especialmente na área de comunicação. Se incluirmos torcedores e pessoas envolvidas indiretamente, o número passa de 1 bilhão. Ainda segundo a FIFA, o valor gasto pelos clubes por transferências de jogadores em 2017 chegou a 6,3 bilhões de dólares. Os números são impressionantes se levarmos em conta o fato de o esporte ter sido profissionalizado há pouco mais de 100 anos.

Mas não é sobre essa relevância que quero discorrer. O mais importante é que o futebol permeia as origens da organização da sociedade e continua a ecoar na manutenção do processo de desenvolvimento como elemento sublimatório da pulsão.
Em psicanálise pulsão é energia interna que direciona o comportamento do indivíduo a determinado objetivo de maneira alheia às decisões conscientes.
Para Freud, a sensação de prazer está relacionada à tensão no aparelho psíquico. Essa tensão precisa ser descarregada para ocorra o gozo, ou seja, quanto menor for a tensão no aparelho psíquico, maior a sensação de prazer para o sujeito. Daí a necessidade dessa energia pulsional, representada pela tensão da excitação, ser aliviada numa atividade sublimatória.

A sexualidade e a violência são inerentes ao homem. Livres de normas e restrições que possibilitem as relações sociais, esses dois fenômenos gerariam sério risco à manutenção da espécie. Nesse sentido, o homem teve de aprender a controlar suas pulsões. É esse processo de transformação da energia em ação produtiva que chamamos de sublimação.
A sublimação da pulsão evidencia o desenvolvimento da cultura à medida que as atividades psíquicas tornaram-se parte da função fundamental na vida que participa do processo civilizatório.

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Você deve estar se perguntando: “O que o chutar uma bola tem de fundamental?”
Pois bem, algumas pesquisas indicam que o futebol tem suas origens na China, por volta de 3000 a.C. Esta linha de estudo revela que os soldados se divertiam com o crânio de seus inimigos decapitados num jogo, o Tsu-Chu, dotado de regras e que talvez fosse até parte do treinamento militar. Outros estudiosos atribuem a invenção do futebol à civilização Maia. Nesse caso, havia uma divisão em duas coletividades rivais entre si e que tinham o desafio de acertar “a bola” em um aro fixo. A disputa era tão intensa que o líder do time derrotado era punido com a morte.

Nos dois exemplos acima notamos que há uma intensa ligação da prática do jogo com a característica violenta do homem. O jogo seria apenas um ritual para dar vazão à hostilidade. Hoje essa prática soa como repugnante pela barbárie. Isso é sinal de que, no processo civilizatório, o homem abdicou de certas doses de violência.
Mas, para Freud, “o ser humano não é um ser manso, amável, somente capaz de se defender quando o atacam. É lícito atribuir a sua dotação pulsional uma boa cota de326884-1504721003 (1) agressividade. Em conseqüência, o próximo não é somente um possível auxiliar e objeto sexual, mas também uma tentação para satisfazer sua agressão, explorar sua força de trabalho sem ressarci-lo, usá-lo sexualmente sem seu consentimento, dispor de seu patrimônio, humilhá-lo, lhe infligir dores, martirizá-lo e de matá-lo”.

E para onde foi toda a energia pulsional humana antes excessivamente agressiva? Segundo a psicanálise, existem 4 destinos possíveis:
Reversão ao seu oposto; Retorno ao próprio eu; Recalque; Sublimação.
Esta última ocorre necessariamente por meio de atividade física. Portanto, atividades esportivas ganham maior importância à medida que o homem passa a estabelecer relações de acordo entre seus oponentes. É interessante observar que essas práticas foram sendo aprimoradas e expandidas simultaneamente ao processo civilizatório.

00000Numa sociedade apta ao desenvolvimento, o futebol de crânio não teria espaço. Há registros de práticas semelhantes ao futebol em momentos posteriores aos citados. Por exemplo, Kemari no Japão, Epyskiros e, posteriormente, o Harpastum em Roma e na Grécia, o Soule, praticado na Idade Média na região onde hoje se localiza a França, e o Calcio Fiorentino na Itália, até chegarmos à Inglaterra, no Século XVII.
O homem menos violento foi capaz de criar, paulatinamente, um futebol igualmente menos violento. O massacre agora é um placar elástico, a humilhação um drible desconcertante, a força de trabalho é o desgaste físico, a dor é impor a derrota, o gol é o gozo.
Winnicott, falando sobre brincadeira infantil, afirma que esta é suplementar ao conceito de sublimação da pulsão. Em muitos países o futebol está entre as brincadeiras mais populares.

Além da dinâmica do deslocamento da libido, o futebol envolve controle, desafio, disputa e questões narcísicas… “Sou Lindo” (RONALDO, Cristiano – 2018). Brincadeiras a parte, a atividade física de contato também coloca o outro como adversário, talvez até como o totem a ser perseguido, alcançado e finalmente vencido.
O futebol atingiu tamanho êxito nesta função pelo caráter subjetivo com que desloca a violência. Uma luta de boxe ou MMA, uma tourada ou automobilismo são esportes de risco e claramente violentos, enquanto que o futebol flerta com a dança. A violência não faz parte da regra, é contra ela. Pode, mas resulta em punição. Portanto não é declaradamente hostil. É uma hostilidade normatizada.
E normatizar a violência é sublimar o instinto. A pulsão se manifesta através de uma forma de trabalho particular, mas sempre se utiliza de objetos pertencentes à sociedade. A famosa ‘pelada’ é um desses objetos.
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E se você ainda tem alguma dúvida da função social do futebol, tente imaginar quantas pessoas estão religiosamente envolvidas direta e indiretamente com futebol, todas as quartas-feiras, às 21h45 e domingos, às 16h00, a ponto de estarem ‘impossibilitadas’ de qualquer outra atividade. Isso contando apenas a divisão principal do futebol brasileiro.

Agora pense… O que elas estariam fazendo se não fosse o futebol?
Talvez chutando crânios depois de uma batalha.

Alessandro Poveda
Psicanalista e São Paulino.

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