MÃE – PRAZER E DOR

Todo prazer intenso toca no limiar da dor”, disse Clarice Lispector em 1968.

personality-bellies-momNós, homens e mulheres, temos um desejo por felicidade e bem estar.
Nossa meta de vida é viver razoavelmente bem. Ter o mínimo de conforto, saúde e realização profissional, etc. Conforme já citei em outro texto, o objetivo do ser humano, desde o nascimento, pode ser resumido em sentir prazer e evitar a dor, como observou o filósofo Epicuro. Diante disso, estamos sujeitos a dois tipos básicos de evento. Os que nos trazem alegrias e os que nos trazem tristeza. Baseamos nossa felicidade nessa dinâmica de eventos, embora esse conceito de felicidade seja raso. Mas, por esta ótica, o equilíbrio e objetivo de nossa vida consiste em “Sentir o máximo possível de prazer, com o mínimo possível de dor”.

Quando criança, você quer um brinquedo ‘x’, depois quer o ‘y’, que é mais caro, mais bonito, mais barulhento. Isso te dá prazer, ao contrário das vacinas injetáveis que você tem de tomar, e que te forçam a perguntar para a enfermeira: “não tem de gotinha”? E assim vamos buscando nossa realização, entre altos e baixos, ganhos e perdas.

Mas, há um ser especial que modifica essa dinâmica temporariamente e de uma forma e incrível. Chama-se MÃE. Aquele ser capaz de se doar integralmente nos primeiros meses de vida do filho, e depois, gradativamente, por toda a vida. E como ela faz isso? Assumindo do filho suas sensações. Logo, cria uma sinergia em que seu prazer e sua dor estão ligados a ele. Esse processo excede as leis da natureza por que une dois seres individuais. Agora o sorriso do filho alegra a mãe, o choro do filho entristece a mãe. O prazer do filho é o seu prazer e a dor do filho é sua dor. Este ser especial chamado mãe cria uma nova dinâmica, e agora o objetivo é dar prazer e evitar a dor do filho.

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A esse processo damos o nome de Simbiose. Um fenômeno em que um indivíduo está ligado a outro por meio do Ego. A Simbiose inibe a capacidade de desenvolvimento de ambos. Portanto é algo forte, complexo e até mesmo arriscado. Segundo Jacquie Schiff A simbiose é uma condição normal no estágio oral de desenvolvimento da criança. É vivida por ambos, mãe e filho, como o fundir ou compartilhar de suas necessidades”. Este processo então é a garantia de que a criança, o ser inferior, terá condições de sobreviver até atingir relativa autonomia. Obviamente esta simbiose diz respeito aos primeiros meses de vida, até que o bebê se reconheça com um ser individual. Portanto, caso isso se estenda por demasiado tempo, pode caracterizar uma patologia.

Mas, o que está em questão aqui é a beleza deste fenômeno. Uma verdadeira dádiva de tornar palpável a empatia. Uma grande demonstração de vínculo e afeto que ecoará por toda a vida do ser. Porém, quando os filhos adquirem autonomia, parecem por vezes esquecer que um dia foram ligados de forma tão profunda à mãe. E embora a mãe competente saiba e aceite que os filhos agora são adultos e livres, ela sempre terá uma pontinha de simbiose que a fará sentir dor e prazer por eles.

Logo na primeira etapa do processo, a atividade sexual, há uma mistura de prazer e dor nos corpos dos pais ligados durante o sensualprocesso de concepção. Em seguida vem o prazer imensurável da descoberta. Algo sublime, novo, uma nova experiência, uma nova vida. Ao passo que também surge uma ansiedade e medo de não dar conta do recado, de não estar preparada, de não conseguir ser tão boa quanto deseja.


Durante a gravidez prazer e dor se misturam. A dor vem das pontadas, chutes, contrações, coluna, pés, o peso, o interior do corpo sendo “empurrado” para criar espaço. Mas tem o prazer de senti-lo mexer, de se ouvir as batidas do coração e acompanhar o desenvolvimento. O prazer de ganhar as primeiras peças de roupa, de montar o quarto, de escolher o nome. Há um ser humano dentro de você!

O parto é o ápice desta fusão. Uma dor inexplicável, uma avalanche de sensações e sentimentos. O medo de não suportar, o medo de saber que a hora chegou e agora há mais um pequeno ser humano para ser amado e cuidado. Mas ao ouvir o primeiro choro toda aquela dor insuportável dá lugar a uma alegria e esperança de ter vencido o processo. Prazer e dor acompanham as mães durante todos os dias de sua vida.

mom-soon-mom-belly-femininity-expectant-motherOs primeiros passos, as primeiras palavras, o primeiro dia na escola (para muitas com muito mais dor do que prazer). O tempo passa… O primeiro diploma, primeiro emprego, primeira(o) namorada(o)… Tudo isso traz uma alegria à mãe como se fosse em seu próprio ser. Por outro lado, uma queda, uma cólica, uma febre, um desconforto, um acidente… O tempo passa… Um problema, uma briga, doenças, relacionamentos problemáticos, escolhas erradas… Isso dói na alma da mãe. Talvez por isso dizem que a pior dor que existe é a de uma mãe que tem de enterrar um filho, pois ela ‘morre estando ainda viva’.

Talvez muitos de nós nunca tenhamos a dimensão da polaridade entre prazer e dor que o ser mãe proporciona. Por isso, o DIA DAS MÃES é útil para que possamos refletir sobre como nossos passos interferem em sua saúde, seu bem estar, sua felicidade.
Se você é mãe, saberá do que estou falando com muito mais propriedade.
Leonardo Da Vinci não era mulher, mas disse algo interessante sobre isso: Tal é o Prazer e a Dor… saem de um tronco único porque têm uma só e mesma base, eis que cansaço e dor são a base do prazer e os prazeres vãos e lascivos estão na base da dor”.

No filme “O Resgate do Soldado Ryan” o Capitão John Miller diz ao soldado James Ryan “faça por merecer”. Pois a vida deles custou o seu resgate. Temos de valorizar da mesma forma a realização de nossas mães. Como se ela dissesse “Eu me entreguei por você por todo esse tempo. Faça valer a pena!”.

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Encha os olhos de sua mãe de lágrimas, mas pela satisfação e gratidão de quem entende todo o processo que ela enfrentou por você. Faça valer a pena!

E, se você é mãe, meus sinceros PARABÉNS! Você é muito especial!
FELIZ DIA DAS MÃES!
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